Viver mais ou viver melhor?Um convite para cuidar do futuro com compaixão
- Tatiana De Nardi
- há 5 horas
- 5 min de leitura
Escrevo este texto não apenas como psicóloga, mas também como alguém que, como tantas outras pessoas, tem pensado cada vez mais sobre o que significa envelhecer, cuidar de quem amamos e construir um futuro com mais qualidade de vida.
Ao longo da minha trajetória profissional, especialmente através do meu trabalho com a Terapia Focada na Compaixão (TFC), aprendi a olhar para as pessoas para além dos seus comportamentos.

Por trás de uma resistência, existe uma história.
Por trás de um “eu sempre fui assim”, muitas vezes existe uma pessoa que encontrou maneiras de viver, sobreviver, trabalhar, cuidar dos outros e seguir adiante. Há hábitos que foram construídos durante décadas e que não podem simplesmente ser descartados porque alguém disse que “agora é preciso mudar”.
Por isso, quando falamos de prevenção do Alzheimer e de outras formas de declínio cognitivo, talvez o primeiro passo não seja dizer:
“Você precisa mudar.”
Talvez seja perguntar:
“O que você gostaria de preservar da sua vida por muitos anos?”
“Eu sempre fui assim. E estou vivo até hoje.”
É uma frase que escutamos com frequência.
E ela merece ser acolhida, não combatida.
Sim. Você sempre foi assim.
E chegou até aqui.
Seus hábitos fazem parte da sua história. Foram escolhas possíveis dentro da vida que você teve, das condições que encontrou, daquilo que aprendeu e também das coisas que lhe deram prazer.
Não precisamos olhar para o passado com culpa.
Mas existe uma diferença entre reconhecer que um hábito nos trouxe até aqui e concluir que ele necessariamente será a melhor escolha para nos acompanhar daqui para frente.
A vida muda.
Nosso corpo muda.
Nosso cérebro muda.
Nossas necessidades também mudam.
E talvez aquilo que funcionou para nós aos 30 ou 40 anos precise ser um pouco diferente aos 50, 60, 70 ou 80.
Isso não significa que você estava errado.
Significa apenas que o próximo capítulo pode pedir novos cuidados.
Afinal, queremos viver mais ou viver melhor?
Essa pergunta tem me acompanhado.
Porque, quando pensamos em prevenção, é muito fácil transformar tudo em números: quantos anos podemos viver, qual doença podemos evitar, qual risco podemos diminuir.
Mas talvez exista uma pergunta ainda mais importante:
Como queremos viver esses anos?
Não se trata apenas de chegar aos 90.
Trata-se de chegar aos 90, se possível, podendo caminhar.
Conversar.
Lembrar.
Escolher.
Viajar.
Encontrar os amigos.
Preparar uma refeição.
Cuidar das próprias coisas.
Brincar com os netos.
Reconhecer as pessoas que amamos.
Continuar participando da própria vida.
Porque estar vivo é uma coisa. Ter autonomia para viver a própria vida é outra.
E é justamente aí que a prevenção ganha um sentido diferente.
Cuidar do cérebro é cuidar da liberdade
Quando falamos sobre atividade física, alimentação, sono, controle da pressão arterial, diabetes e colesterol, estímulo cognitivo, relações sociais, audição e redução de hábitos nocivos, não estamos prometendo que essas atitudes impedirão alguém de desenvolver Alzheimer.
Não existe essa garantia.
Mas sabemos que cuidar dos fatores de risco modificáveis pode contribuir para a saúde cerebral e para um envelhecimento mais saudável.
E gosto de pensar nisso não como uma lista de regras.
Penso como uma forma de proteger a liberdade futura.
Caminhar não é apenas “fazer exercício”.
Pode ser uma maneira de preservar a capacidade de ir e vir.
Aprender algo novo não é apenas “estimular o cérebro”.
Pode ser uma maneira de continuar curioso e conectado com o mundo.
Cuidar da alimentação não é simplesmente “fazer dieta”.
Pode ser uma forma de cuidar do corpo que queremos continuar habitando por muitos anos.
Dormir melhor não é luxo.
É cuidado.
Cultivar relações não é perda de tempo.
É investir em conexão.
E procurar ajuda médica quando algo não está bem não significa fragilidade.
Significa responsabilidade consigo mesmo.
Mas eu não gosto de mudar...
Tudo bem.
Na Terapia Focada na Compaixão, aprendemos a olhar para nossas dificuldades com curiosidade antes de tentar combatê-las.
Talvez exista uma parte sua que diga:
“Eu sempre fiz assim.”
Talvez outra diga:
“Vou morrer de qualquer jeito.”
Ou ainda:
“Não quero viver cheio de restrições.”
Essas partes não precisam ser humilhadas.
Podemos escutá-las.
O que elas estão tentando proteger?
Talvez estejam tentando proteger seu prazer.
Sua liberdade.
Seu conforto.
Sua identidade.
Sua autonomia.
E, quando compreendemos isso, podemos começar uma conversa diferente:
“Será que consigo cuidar melhor de mim sem deixar de viver a vida que gosto?”
Talvez sim.
Você não precisa mudar tudo amanhã.
Não precisa se tornar outra pessoa.
Não precisa fazer uma dieta perfeita, começar uma rotina impossível ou transformar sua vida em uma sequência de obrigações.
Pode começar pequeno.
Uma caminhada.
Uma consulta que estava sendo adiada.
Um pouco mais de movimento.
Uma mudança na alimentação.
Uma atividade nova.
Uma noite de sono melhor.
Uma conversa.
Um encontro.
Uma redução gradual de um hábito que sabemos que não faz bem.
Pequenas escolhas, repetidas ao longo do tempo, podem se transformar em grandes cuidados.
Não quero que você viva com medo do Alzheimer
Essa é uma parte importante do que gostaria de transmitir.
Prevenção não deveria significar viver assustado.
Não quero que você passe a olhar para cada esquecimento como um sinal de doença.
Não quero que você transforme o envelhecimento em uma ameaça.
Quero propor outra perspectiva:
cuidar hoje para aumentar as possibilidades de viver bem amanhã.
Porque cuidar da saúde não precisa ser uma declaração de guerra contra o envelhecimento.
Pode ser uma forma de fazer as pazes com ele.
Estamos envelhecendo.
Todos nós.
E talvez a pergunta não seja:
“Como faço para não envelhecer?”
Mas:
“Como quero envelhecer?”
Pense na pessoa que você será daqui a 10, 20 ou 30 anos...
Imagine encontrá-la.
Você.
Mais velho.
O que gostaria que essa pessoa ainda pudesse fazer?
Que histórias gostaria que ela lembrasse?
Com quem gostaria que ela pudesse conversar?
Que lugares gostaria que pudesse conhecer?
Que decisões gostaria que ainda pudesse tomar?
Quanto gostaria que ela dependesse dos outros?
Agora imagine que algumas das escolhas que você faz hoje podem ser uma forma de cuidar dessa pessoa.
Não por medo.
Não por culpa.
Não porque alguém está dizendo que você está fazendo tudo errado.
Mas porque existe um futuro seu que merece ser cuidado pelo seu presente.
Talvez esse seja um dos significados mais bonitos do autocuidado.
Não tentar controlar o futuro — porque não podemos.
Mas fazer hoje aquilo que está ao nosso alcance para aumentar as chances de que o futuro seja vivido com mais saúde, autonomia, conexão e qualidade.
E talvez seja isso que eu gostaria de dizer a você
Você não precisa mudar quem você é.
Mas pode escolher cuidar melhor da pessoa que está se tornando.
Não precisa fazer tudo.
Comece por alguma coisa.
Faça uma pequena escolha que seu “eu” de amanhã agradecerá.
Porque, no fim, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Quantos anos ainda vou viver?”
Mas:
“O que posso fazer hoje para aumentar as chances de que os anos que eu viver sejam bons anos?”
É nessa direção que penso quando falo de prevenção.
Não como medo.
Não como cobrança.
Não como perfeição.
Como compaixão.
Compaixão por quem fomos.
Compreensão por quem somos.
E cuidado com quem ainda vamos ser....





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